Dengue Hemorrágica: O Que É, Sintomas, Tratamento e Prevenção

A dengue hemorrágica, também conhecida como dengue grave, representa a forma mais severa da infecção pelo vírus da dengue. Esta complicação potencialmente fatal ocorre quando há alterações na coagulação sanguínea e aumento da permeabilidade vascular, levando a manifestações hemorrágicas e choque hipovolêmico. Compreender seus sintomas, fatores de risco e tratamento é essencial para evitar desfechos graves.

O Que é Dengue Hemorrágica?

A dengue hemorrágica é uma complicação grave da dengue clássica, caracterizada por extravasamento de plasma, distúrbios hemorrágicos e comprometimento de órgãos. Esta condição está associada principalmente à reinfecção por um sorotipo diferente do vírus, quando o sistema imunológico desencadeia uma resposta exagerada, causando danos aos vasos sanguíneos e órgãos.

Alerta importante: A dengue hemorrágica é uma emergência médica que pode levar à morte se não tratada adequadamente e com rapidez. Os sintomas de alarme geralmente aparecem entre o 3º e 7º dia da doença, quando a febre começa a ceder.

Relação Entre Dengue Hemorrágica e os Sorotipos do Vírus

O vírus da dengue possui quatro sorotipos diferentes: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Quando uma pessoa é infectada por um destes sorotipos, desenvolve imunidade permanente apenas contra aquele sorotipo específico, permanecendo suscetível aos outros três. Este fenômeno está diretamente relacionado ao desenvolvimento da dengue hemorrágica.

Estudos indicam que o DENV-2 é o sorotipo mais frequentemente associado a casos graves da doença, embora qualquer um dos quatro sorotipos possa causar a forma hemorrágica. O risco de desenvolver dengue hemorrágica aumenta significativamente na segunda infecção por um sorotipo diferente, devido a um fenômeno conhecido como “aumento dependente de anticorpos” (ADE, na sigla em inglês).

Fases da Dengue até Evoluir para Forma Hemorrágica

A evolução da dengue clássica para a dengue hemorrágica geralmente segue um padrão de fases da dengue bem definidas:

  1. Fase febril inicial: Caracterizada por febre alta súbita (39-40°C), dores musculares intensas, dor retro-orbital, prostração e possíveis manchas vermelhas na pele. Esta fase dura geralmente de 2 a 7 dias.
  2. Fase crítica: Ocorre com o declínio da febre, geralmente entre o 3º e 7º dia da doença. É neste momento que surgem os sinais de alarme que indicam a progressão para dengue hemorrágica.
  3. Fase de recuperação: Se o paciente sobrevive à fase crítica e recebe tratamento adequado, inicia-se a recuperação gradual, com reabsorção do plasma extravasado e normalização das plaquetas.

Sintomas da Dengue Hemorrágica

Os sintomas da dengue hemorrágica começam de forma semelhante à dengue clássica, mas evoluem para manifestações mais graves. É fundamental reconhecer os sinais de alarme que indicam a progressão para a forma grave da doença.

Sintomas Iniciais (Semelhantes à Dengue Clássica)

  • Febre alta (39°C a 40°C) de início súbito
  • Dor de cabeça intensa e dor atrás dos olhos
  • Dores musculares e articulares severas
  • Náuseas e vômitos
  • Prostração e fraqueza
  • Manchas vermelhas na pele (exantema)

Sinais de Alarme (Indicativos de Progressão para Dengue Hemorrágica)

  • Dor abdominal intensa e contínua
  • Vômitos persistentes, às vezes com sangue
  • Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural ou pericárdico)
  • Sangramento de mucosas (gengiva, nariz, ouvidos)
  • Letargia, agitação ou irritabilidade
  • Hipotensão postural (pressão arterial baixa)
  • Hepatomegalia (aumento do fígado) dolorosa
  • Diminuição da produção de urina

Atenção! Qualquer um destes sinais de alarme indica necessidade de atendimento médico imediato. O atraso no tratamento pode ser fatal em casos de dengue hemorrágica.

Manifestações Hemorrágicas

Na dengue hemorrágica propriamente dita, além dos sintomas anteriores, ocorrem manifestações hemorrágicas como:

  • Petéquias (pequenos pontos vermelhos na pele)
  • Equimoses (manchas roxas ou azuladas na pele)
  • Epistaxe (sangramento nasal)
  • Gengivorragia (sangramento gengival)
  • Metrorragia (sangramento vaginal anormal)
  • Hematêmese (vômito com sangue)
  • Melena (fezes escuras por presença de sangue)
  • Hematúria (sangue na urina)

Causas e Fatores de Risco da Dengue Hemorrágica

A evolução da dengue clássica para a forma hemorrágica está associada a diversos fatores:

Principais Fatores de Risco

  • Infecção secundária por sorotipo diferente: O principal fator de risco é a segunda infecção por um sorotipo do vírus diferente do primeiro.
  • Sorotipo viral: Infecções pelo DENV-2 e DENV-3 estão mais frequentemente associadas a casos graves.
  • Idade: Crianças pequenas e idosos têm maior risco de complicações.
  • Comorbidades: Diabetes, hipertensão arterial, obesidade, doenças renais e hepáticas crônicas aumentam o risco de dengue grave.
  • Sexo feminino: Mulheres, especialmente gestantes, parecem ter maior propensão a desenvolver formas graves.
  • Genética: Fatores genéticos do hospedeiro podem influenciar a resposta imunológica ao vírus.

Mecanismo Fisiopatológico

A dengue hemorrágica desenvolve-se a partir de um complexo mecanismo imunológico. Na segunda infecção, os anticorpos pré-existentes (da primeira infecção) reconhecem o novo sorotipo, mas não conseguem neutralizá-lo eficientemente. Ao contrário, esses anticorpos facilitam a entrada do vírus nas células imunes, aumentando a replicação viral e desencadeando uma resposta inflamatória exagerada que leva a:

  • Aumento da permeabilidade vascular com extravasamento de plasma
  • Disfunção plaquetária e diminuição das plaquetas (trombocitopenia)
  • Ativação da cascata de coagulação
  • Lesão endotelial direta pelo vírus
  • Liberação maciça de citocinas inflamatórias (“tempestade de citocinas”)

Diagnóstico da Dengue Hemorrágica

O diagnóstico da dengue hemorrágica baseia-se em critérios clínicos, epidemiológicos e laboratoriais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os seguintes critérios devem estar presentes:

Critérios Clínicos

  • Febre ou história recente de febre (2-7 dias)
  • Manifestações hemorrágicas (pelo menos uma)
  • Hepatomegalia
  • Sinais de choque circulatório

Critérios Laboratoriais

  • Trombocitopenia (contagem de plaquetas ≤ 100.000/mm³)
  • Hemoconcentração (aumento do hematócrito em 20% ou mais)
  • Evidência de extravasamento de plasma (derrame pleural, ascite, hipoproteinemia)

Exames Diagnósticos

  • Hemograma completo: Revela trombocitopenia e hemoconcentração, características da dengue hemorrágica
  • Coagulograma: Avalia alterações na coagulação sanguínea
  • Teste NS1: Detecta antígeno viral nos primeiros dias da doença
  • Sorologia IgM/IgG: Identifica anticorpos específicos para dengue
  • PCR: Detecta material genético viral e identifica o sorotipo
  • Provas de função hepática e renal: Avaliam comprometimento de órgãos
  • Exames de imagem: Ultrassonografia abdominal, radiografia de tórax para avaliar derrames

Tratamento da Dengue Hemorrágica

A dengue hemorrágica é uma emergência médica e requer hospitalização imediata. Não existe tratamento antiviral específico, sendo a abordagem terapêutica focada em medidas de suporte e manejo das complicações.

Pilares do Tratamento

  • Reposição volêmica: O manejo adequado de fluidos é o elemento mais crucial no tratamento. Geralmente realizada por via intravenosa, com monitoramento rigoroso dos sinais vitais e parâmetros laboratoriais.
  • Monitoramento intensivo: Acompanhamento contínuo de sinais vitais, diurese, hematócrito, plaquetas e outros parâmetros clínico-laboratoriais.
  • Suporte hemodinâmico: Em casos de choque, podem ser necessárias medidas adicionais para estabilização da pressão arterial.
  • Tratamento das hemorragias: Em casos de sangramentos significativos, pode ser necessária a transfusão de concentrado de plaquetas, plasma fresco ou concentrado de hemácias.
  • Suporte de órgãos: Tratamento de suporte para insuficiência respiratória, renal ou hepática, se presentes.

Importante: Deve-se evitar o uso de medicamentos que possam agravar o sangramento, como ácido acetilsalicílico (AAS) e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). O paracetamol ou a dipirona são as opções para controle da febre e dor.

Protocolo de Hidratação

O protocolo de hidratação na dengue hemorrágica geralmente segue três fases:

  1. Fase de expansão rápida: Infusão inicial de 10-20 ml/kg/hora de solução cristaloide (geralmente soro fisiológico) nas primeiras 1-2 horas.
  2. Fase de manutenção: Redução gradual do volume infundido conforme resposta clínica e laboratorial.
  3. Fase de reabsorção: Quando há estabilização do quadro e início da fase de recuperação, a hidratação intravenosa deve ser reduzida para evitar sobrecarga hídrica.

Complicações da Dengue Hemorrágica

Mesmo com tratamento adequado, a dengue hemorrágica pode evoluir com complicações graves, incluindo:

  • Síndrome do choque da dengue (SCD): Forma mais grave, caracterizada por choque hipovolêmico refratário
  • Insuficiência respiratória: Devido ao derrame pleural e edema pulmonar
  • Insuficiência hepática aguda: Com elevação extrema das enzimas hepáticas e icterícia
  • Insuficiência renal aguda: Por hipoperfusão renal ou lesão direta
  • Manifestações neurológicas: Encefalopatia, convulsões, síndrome de Guillain-Barré
  • Hemorragias graves: Digestivas, intracranianas ou em outros órgãos
  • Coagulação intravascular disseminada (CIVD)
  • Miocardite e arritmias cardíacas

Prevenção da Dengue Hemorrágica

A prevenção da dengue hemorrágica está diretamente relacionada à prevenção da dengue em geral, já que só desenvolve a forma grave quem primeiro contrai a forma clássica. As principais medidas preventivas incluem:

Controle do Vetor

  • Eliminação de criadouros: Remover recipientes que possam acumular água parada (pneus, garrafas, vasos de plantas, calhas entupidas)
  • Tratamento de reservatórios: Manter caixas d’água, cisternas e outros reservatórios devidamente tampados
  • Uso de larvicidas: Em locais onde não é possível eliminar a água parada
  • Ações comunitárias: Mutirões de limpeza e campanhas educativas

Proteção Individual

  • Uso de repelentes: Principalmente durante os horários de maior atividade do mosquito (início da manhã e final da tarde)
  • Roupas protetoras: Uso de roupas de mangas compridas e calças
  • Telas em portas e janelas: Para impedir a entrada do mosquito nas residências
  • Mosquiteiros: Especialmente para crianças pequenas, idosos e enfermos

Vacinas contra a Dengue

Atualmente existem vacinas disponíveis contra a dengue que representam importante estratégia preventiva contra todas as formas da doença, incluindo a dengue hemorrágica:

  • Qdenga (TAK-003): Vacina tetravalente (protege contra os quatro sorotipos) aprovada no Brasil em 2023. Indicada para pessoas de 4 a 60 anos, com ou sem infecção prévia por dengue.
  • Dengvaxia: Primeira vacina aprovada contra dengue, recomendada apenas para pessoas que já tiveram dengue anteriormente, devido ao risco aumentado de dengue grave em indivíduos soronegativos que se infectam após a vacinação.

Novidade: A vacina Qdenga foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2024, inicialmente para públicos específicos e regiões de maior incidência da doença.

Diferenças entre Dengue Clássica e Dengue Hemorrágica

É fundamental compreender as diferenças entre a dengue clássica e a dengue hemorrágica para o reconhecimento precoce da forma grave:

Característica Dengue Clássica Dengue Hemorrágica
Evolução clínica Geralmente autolimitada, com recuperação em 7-10 dias Potencialmente fatal, com rápida deterioração entre o 3º-7º dia
Manifestações hemorrágicas Ausentes ou leves (petéquias) Evidentes e potencialmente graves
Extravasamento de plasma Ausente Presente (derrame pleural, ascite)
Plaquetas Podem estar reduzidas, mas raramente abaixo de 100.000/mm³ Trombocitopenia acentuada (<100.000/mm³)
Hematócrito Normal ou levemente alterado Elevado (≥20% do valor basal)
Necessidade de hospitalização Geralmente não necessária Obrigatória

Grupos de Risco para Dengue Hemorrágica

Alguns grupos têm maior risco de desenvolver dengue hemorrágica quando infectados pelo vírus da dengue:

Gestantes

Gestantes com dengue apresentam maior risco de evolução para formas graves, com possíveis complicações obstétricas como:

  • Parto prematuro
  • Sofrimento fetal
  • Hemorragia pós-parto
  • Transmissão vertical do vírus

Idosos

Pacientes idosos têm maior risco de complicações devido a:

  • Sistema imunológico menos eficiente
  • Maior prevalência de comorbidades
  • Uso de múltiplos medicamentos
  • Reserva fisiológica reduzida

Crianças

Crianças, especialmente menores de 2 anos, apresentam manifestações atípicas e maior risco de:

  • Desidratação rápida
  • Manifestações neurológicas
  • Dificuldade de reconhecimento precoce dos sinais de alarme

Pacientes com Comorbidades

Indivíduos com condições crônicas como diabetes, hipertensão, obesidade, asma, doenças cardiovasculares e imunossupressão têm maior risco de tipos de dengue mais graves, incluindo a forma hemorrágica.

Quando Procurar Atendimento Médico

É fundamental procurar atendimento médico imediato nos seguintes casos:

  • Ao apresentar qualquer sinal de alarme mencionado anteriormente
  • Se houver sangramentos, mesmo que leves
  • Em caso de dor abdominal intensa ou vômitos persistentes
  • Se houver tontura, desmaio ou extrema fraqueza
  • Gestantes, crianças pequenas, idosos ou pessoas com comorbidades devem procurar atendimento já nos primeiros sintomas de dengue

Lembre-se: A dengue hemorrágica é uma emergência médica. O reconhecimento precoce dos sinais de alarme e o tratamento adequado podem fazer a diferença entre a vida e a morte.

Perguntas Frequentes sobre Dengue Hemorrágica

A dengue hemorrágica tem cura?

Sim, a dengue hemorrágica tem cura quando diagnosticada e tratada precocemente. O tratamento adequado e oportuno reduz significativamente a taxa de mortalidade, que pode chegar a menos de 1% nos casos tratados corretamente.

Quanto tempo dura a dengue hemorrágica?

A dengue hemorrágica geralmente tem um curso clínico de 7 a 10 dias, sendo a fase crítica entre o 3º e 7º dia da doença. Após a estabilização, a recuperação completa pode levar algumas semanas, com sintomas como fadiga persistindo por mais tempo.

Qual a taxa de mortalidade da dengue hemorrágica?

Sem tratamento adequado, a taxa de mortalidade da dengue hemorrágica pode chegar a 20%. Com manejo clínico apropriado e precoce, essa taxa cai para menos de 1%, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

Conclusão

A dengue hemorrágica representa a manifestação mais grave da infecção pelo vírus da dengue, com potencial de causar complicações fatais se não for reconhecida e tratada adequadamente. O conhecimento sobre seus sintomas, fatores de risco e medidas preventivas é fundamental para reduzir sua incidência e mortalidade.

A prevenção da dengue hemorrágica passa necessariamente pela prevenção da dengue em sua forma inicial, com foco no controle do mosquito vetor e na proteção individual. A disponibilidade de vacinas contra a dengue representa um avanço importante na prevenção de todas as formas da doença, incluindo a hemorrágica.

Por fim, é essencial o reconhecimento precoce dos sinais de alarme e a busca imediata por atendimento médico ao primeiro sinal de progressão para a forma grave, permitindo intervenção oportuna e redução significativa do risco de óbito.

Referências Científicas

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  3. Katzelnick, L. C., Gresh, L., Halloran, M. E., Mercado, J. C., Kuan, G., Gordon, A., … & Harris, E. (2017). Antibody-dependent enhancement of severe dengue disease in humans. Science, 358(6365), 929-932.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. (2024). Guia de Vigilância em Saúde. Brasília: Ministério da Saúde.
  5. Halstead, S. B. (2019). Recent advances in understanding dengue. F1000Research, 8, F1000 Faculty Rev-1279.
  6. Simmons, C. P., Farrar, J. J., van Vinh Chau, N., & Wills, B. (2012). Dengue. New England Journal of Medicine, 366(15), 1423-1432.
Agente técnica operando drone para mapeamento no combate à dengue com fundo de mapa do Brasil. Techdengue.

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