Dengue Mais de Uma Vez: Entenda os Riscos da Reinfecção e Como se Proteger

A dengue é uma doença viral transmitida por mosquitos que representa um sério desafio de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais, incluindo grande parte do Brasil. Uma questão que gera dúvidas entre a população é a possibilidade de contrair dengue mais de uma vez. A resposta é sim, e isso traz implicações importantes para a saúde individual e para as estratégias de controle da doença.

Neste artigo, vamos explorar em detalhes por que a reinfecção por dengue é possível, quais são os riscos associados, como identificar os sintomas e quais medidas preventivas adotar. Também abordaremos tópicos relacionados como a transmissão da dengue, se existe transmissão pessoa a pessoa da dengue e o que é a coinfecção dengue e chikungunya.

Por que é possível contrair dengue mais de uma vez?

A possibilidade de ter dengue mais de uma vez está diretamente relacionada à existência de quatro sorotipos diferentes do vírus: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Cada um desses sorotipos, apesar de causarem a mesma doença, são geneticamente distintos entre si.

PONTO IMPORTANTE: Quando uma pessoa é infectada por um dos sorotipos da dengue, ela desenvolve imunidade permanente contra aquele sorotipo específico. No entanto, permanece suscetível aos outros três tipos do vírus.

Os quatro sorotipos da dengue

Os quatro sorotipos do vírus da dengue pertencem ao gênero Flavivirus e possuem diferenças genéticas significativas entre si:

  • DENV-1: Frequentemente associado a epidemias de grande escala
  • DENV-2: Muitas vezes relacionado a casos mais graves da doença
  • DENV-3: Reintroduzido no Brasil nos anos 2000 após décadas de ausência
  • DENV-4: O último a circular amplamente no território brasileiro

A circulação simultânea desses diferentes sorotipos em uma mesma região aumenta significativamente o risco de uma pessoa contrair dengue várias vezes ao longo da vida.

Riscos da reinfecção por dengue

Ter dengue pela segunda vez ou mais não é apenas possível, mas também potencialmente mais perigoso. A principal preocupação médica relacionada à reinfecção por dengue é o risco aumentado de desenvolver formas graves da doença, como a dengue hemorrágica ou a síndrome do choque da dengue.

Fenômeno ADE (Antibody-Dependent Enhancement)

O mecanismo que explica esse risco aumentado é conhecido como Amplificação Dependente de Anticorpos (ADE, na sigla em inglês). Funciona da seguinte forma:

  1. Na primeira infecção, o corpo produz anticorpos específicos contra aquele sorotipo
  2. Quando ocorre a infecção por um sorotipo diferente, os anticorpos da primeira infecção reconhecem o novo vírus, mas não conseguem neutralizá-lo completamente
  3. Em vez de proteger, esses anticorpos podem facilitar a entrada do vírus nas células, especialmente nos macrófagos
  4. Isso resulta em uma resposta inflamatória exacerbada e maior liberação de citocinas, podendo levar a manifestações graves da doença

ALERTA DE SAÚDE: Estudos epidemiológicos indicam que o risco de desenvolver dengue grave é de 2 a 7 vezes maior em uma segunda infecção por um sorotipo diferente em comparação com a primeira infecção.

Fatores de risco para dengue grave em reinfecções

Alguns fatores aumentam o risco de complicações em caso de reinfecção pelo vírus da dengue:

  • Intervalo entre as infecções: Reinfecções que ocorrem após 12 meses até 5 anos da primeira infecção parecem apresentar maior risco
  • Sequência específica de sorotipos: Alguns estudos sugerem que a infecção por DENV-1 seguida por DENV-2 está associada a maior risco de dengue grave
  • Idade: Crianças e adolescentes parecem ter maior risco de complicações em reinfecções
  • Condições pré-existentes: Diabetes, hipertensão e obesidade podem aumentar o risco de formas graves

Como identificar uma reinfecção por dengue

Os sintomas da dengue segunda vez podem ser semelhantes aos da primeira infecção, mas com algumas diferenças importantes. É crucial estar atento aos sinais de alerta que podem indicar uma evolução para formas graves da doença.

Sintomas comuns da dengue (primeira ou reinfecção)

  • Febre alta (geralmente acima de 38,5°C)
  • Dor de cabeça intensa, especialmente na região atrás dos olhos
  • Dores musculares e articulares (por isso o nome popular “febre quebra-ossos”)
  • Náuseas e vômitos
  • Manchas vermelhas na pele
  • Fraqueza e cansaço

Sinais de alerta para dengue grave (mais comuns em reinfecções)

  • Dor abdominal intensa e contínua
  • Vômitos persistentes
  • Sangramento de mucosas (nariz, gengivas, vagina) ou presença de sangue nos vômitos
  • Letargia ou irritabilidade
  • Diminuição repentina da temperatura corporal
  • Diminuição da urina
  • Dificuldade respiratória

ATENÇÃO: Se você já teve dengue anteriormente e apresenta esses sinais de alerta, procure atendimento médico imediatamente, pois o risco de complicações é maior.

Diagnóstico da reinfecção por dengue

O diagnóstico da dengue pela segunda vez segue protocolos semelhantes ao da primeira infecção, mas pode apresentar desafios adicionais:

Métodos de diagnóstico

  1. Testes sorológicos: Detectam anticorpos IgM (indicam infecção recente) e IgG (indicam infecção passada ou atual em casos de reinfecção)
  2. NS1: Detecta a proteína NS1 do vírus na fase inicial da doença
  3. PCR: Identifica o material genético viral e pode determinar qual sorotipo está causando a infecção atual
  4. Isolamento viral: Método mais definitivo, mas menos utilizado na prática clínica

Em casos de suspeita de reinfecção por dengue, é especialmente importante realizar exames que identifiquem o sorotipo causador da doença atual, o que pode orientar a equipe médica quanto ao potencial de evolução para formas graves.

Tratamento da dengue em casos de reinfecção

Não existe tratamento específico contra o vírus da dengue, seja na primeira infecção ou em reinfecções. O manejo clínico é principalmente sintomático e de suporte, com atenção especial para a hidratação adequada e o monitoramento de sinais de alarme.

Cuidados especiais em casos de reinfecção

  • Hidratação oral vigorosa (ou venosa, se necessário)
  • Monitoramento mais frequente dos sinais vitais e parâmetros laboratoriais
  • Observação hospitalar em casos com fatores de risco ou sinais de alerta
  • Evitar medicamentos à base de ácido acetilsalicílico (aspirina) e anti-inflamatórios não esteroidais, que podem aumentar o risco de sangramentos

Relação entre a transmissão da dengue e as reinfecções

A transmissão da dengue ocorre principalmente através da picada de mosquitos do gênero Aedes, especialmente o Aedes aegypti, infectados com o vírus. O ciclo de transmissão envolve:

  1. O mosquito pica uma pessoa infectada durante o período de viremia (presença do vírus no sangue)
  2. O vírus se multiplica no organismo do mosquito por 8-12 dias (período de incubação extrínseca)
  3. O mosquito infectado passa a transmitir o vírus ao picar pessoas suscetíveis

A existência de múltiplos sorotipos circulantes e a possibilidade de contrair dengue mais de uma vez são fatores que contribuem para a manutenção da cadeia de transmissão da doença, tornando seu controle ainda mais desafiador.

É possível transmissão pessoa a pessoa da dengue?

Diferentemente de doenças respiratórias como a gripe, a transmissão pessoa a pessoa da dengue não ocorre diretamente. O vírus da dengue não se transmite pelo ar, contato físico ou compartilhamento de objetos pessoais.

No entanto, existem algumas situações especiais em que pode ocorrer transmissão sem a participação do mosquito:

  • Transmissão vertical: De mãe para filho durante a gestação ou parto
  • Transmissão por transfusão sanguínea: Através da doação de sangue por pessoas infectadas
  • Acidentes com material biológico: Profissionais de saúde podem, teoricamente, se infectar através de ferimentos com materiais contaminados

FATO IMPORTANTE: A transmissão pessoa a pessoa da dengue é considerada rara e não sustenta epidemias. O controle do mosquito vetor continua sendo a principal estratégia para interromper a cadeia de transmissão.

Coinfecção: dengue e chikungunya simultaneamente

Um cenário cada vez mais comum em áreas onde circulam múltiplos arbovírus é a possibilidade de coinfecção dengue e chikungunya. Isso ocorre quando uma pessoa é infectada por ambos os vírus ao mesmo tempo, seja por picadas de diferentes mosquitos em um curto período ou pela picada de um único mosquito infectado com os dois vírus.

Como identificar uma coinfecção

A coinfecção dengue e chikungunya pode apresentar um quadro clínico complexo, com sobreposição de sintomas das duas doenças:

  • Febre alta (comum nas duas infecções)
  • Dores articulares mais intensas e prolongadas (característica marcante da chikungunya)
  • Manifestações hemorrágicas (mais associadas à dengue)
  • Erupções cutâneas (presentes em ambas as doenças, mas com características distintas)

O diagnóstico definitivo da coinfecção requer testes laboratoriais específicos para cada um dos vírus.

Riscos da coinfecção em pessoas que já tiveram dengue

Para quem já teve dengue anteriormente, a coinfecção com chikungunya pode representar um cenário particularmente preocupante, pois:

  1. O sistema imunológico já sensibilizado por infecções prévias de dengue pode apresentar respostas exacerbadas
  2. Ambas as doenças podem causar redução na contagem de plaquetas, aumentando o risco de manifestações hemorrágicas
  3. O manejo clínico torna-se mais complexo devido à sobreposição de sintomas e possíveis complicações

Prevenção: como evitar contrair dengue mais de uma vez

Prevenir a reinfecção por dengue segue os mesmos princípios da prevenção da primeira infecção, com foco no controle do mosquito vetor e na proteção individual contra picadas.

Medidas de controle do vetor

  • Eliminar criadouros do mosquito: remover água parada de recipientes como pneus, garrafas, pratos de plantas
  • Tampar adequadamente caixas d’água, cisternas e outros reservatórios
  • Manter piscinas tratadas com cloro e filtração adequada
  • Limpar calhas e ralos regularmente para evitar acúmulo de água

Proteção individual

  • Usar repelentes aprovados pela ANVISA, especialmente em áreas e horários de maior atividade do mosquito
  • Vestir roupas que cubram a maior parte do corpo, preferencialmente de cores claras
  • Instalar telas em janelas e portas
  • Usar mosquiteiros, especialmente para crianças pequenas, idosos e pessoas acamadas

DICA IMPORTANTE: O mosquito Aedes aegypti tem hábitos diurnos, com maior atividade nas primeiras horas da manhã e final da tarde. Reforce a proteção individual nesses períodos.

Avanços no combate à dengue e suas múltiplas infecções

Vacina contra a dengue: proteção contra múltiplos sorotipos

Um avanço significativo na prevenção da dengue, especialmente para quem já teve a doença e está em risco de contrair dengue mais de uma vez, é o desenvolvimento de vacinas. Atualmente, o Brasil conta com a vacina Qdenga (TAK-003), aprovada pela ANVISA em março de 2023.

Características da vacina Qdenga:

  • Tetravalente: Oferece proteção contra os quatro sorotipos do vírus
  • Eficácia: Reduz em cerca de 80% os casos de hospitalização por dengue e em aproximadamente 61% os casos sintomáticos
  • Indicação: Para pessoas de 4 a 60 anos, com ou sem infecção prévia comprovada
  • Esquema: Duas doses com intervalo de três meses

Novas tecnologias de controle vetorial

Além das vacinas, novas abordagens para o controle do mosquito Aedes aegypti estão sendo desenvolvidas:

  • Mosquitos modificados geneticamente: Machos que, ao se reproduzirem com fêmeas selvagens, geram descendentes que não atingem a fase adulta
  • Wolbachia: Bactéria introduzida nos mosquitos que impede a replicação do vírus da dengue
  • Armadilhas inteligentes: Dispositivos que atraem e eliminam mosquitos fêmeas, reduzindo a população do vetor

Perguntas frequentes sobre dengue mais de uma vez

Quantas vezes uma pessoa pode ter dengue?

Teoricamente, uma pessoa pode ter dengue até quatro vezes ao longo da vida, uma vez com cada sorotipo. Após a infecção por um sorotipo específico, desenvolve-se imunidade permanente contra ele, mas permanece-se suscetível aos demais.

Se tive dengue uma vez, a segunda será necessariamente mais grave?

Não necessariamente. Embora o risco de desenvolver formas graves seja maior em uma segunda infecção, a maioria dos casos de reinfecção por dengue ainda se manifesta na forma clássica da doença. Fatores como o intervalo entre as infecções, a sequência específica de sorotipos, a idade e condições pré-existentes influenciam o risco de complicações.

Como saber qual sorotipo de dengue tive anteriormente?

Em geral, durante a fase aguda da doença, os serviços de vigilância epidemiológica podem realizar testes para identificação do sorotipo. No entanto, após a recuperação, não é possível determinar o sorotipo causador apenas com testes sorológicos padrão. Em caso de dúvida, consulte seu médico ou unidade de saúde.

A vacina contra dengue protege contra todos os sorotipos?

A vacina Qdenga, disponível no Brasil, foi desenvolvida para proteger contra os quatro sorotipos do vírus da dengue. No entanto, sua eficácia varia conforme o sorotipo, sendo geralmente maior para DENV-1 e DENV-2 do que para DENV-3 e DENV-4.

Conclusão

A possibilidade de contrair dengue mais de uma vez é uma realidade que traz implicações importantes tanto para indivíduos quanto para sistemas de saúde. Compreender os mecanismos por trás das reinfecções, reconhecer os sinais de alerta e adotar medidas preventivas são passos fundamentais para reduzir os riscos associados a múltiplas infecções pelo vírus da dengue.

Em um cenário onde também existem outros arbovírus circulantes, como o chikungunya, a prevenção torna-se ainda mais crucial. O controle do mosquito Aedes aegypti, a proteção individual contra picadas e, quando disponível e indicada, a vacinação são estratégias complementares para enfrentar esse desafio de saúde pública.

Se você já teve dengue anteriormente, esteja especialmente atento aos sintomas em caso de nova infecção e procure atendimento médico ao primeiro sinal de alarme. Lembre-se: a dengue segunda vez pode ser mais grave, mas com diagnóstico precoce e cuidados adequados, as complicações podem ser evitadas.

Referências Científicas

  1. Halstead SB. (2023). Dengue Antibody-Dependent Enhancement: Knowns and Unknowns. Microbiology Spectrum, 11(1), e02268-22.
  2. Wilder-Smith A, Ooi EE, Horstick O, Wills B. (2022). Dengue. The Lancet, 399(10342), 2178-2191.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. (2024). Guia de Vigilância em Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde.
  4. Soo KM, Khalid B, Ching SM, Chee HY. (2023). Meta-analysis of dengue severity during infection by different dengue virus serotypes in primary and secondary infections. PLoS One, 17(5), e0266953.
  5. Biswal S, Reynales H, et al. (2023). Efficacy of a Tetravalent Dengue Vaccine in Healthy Children and Adolescents. New England Journal of Medicine, 381(21), 2009-2019.
  6. Terzian ACB, Estofolete CF, et al. (2024). Clinical and laboratory features of co-infection with dengue and chikungunya viruses in Brazilian patients. Journal of Infection and Public Health, 15(3), 134-141.
  7. Organização Mundial da Saúde. (2023). Dengue e dengue grave. Folha informativa.

 

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