O El Niño voltou ao centro das discussões em 2026. A Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO) e o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) confirmaram a ocorrência de um evento de intensidade moderada a forte no segundo semestre do ano, e o Ministério da Saúde já emitiu um alerta oficial sobre seus possíveis impactos na saúde pública. Mas, afinal, o que é o El Niño, como ele funciona e por que ele mexe tanto com o clima — e até com a dengue — no Brasil? Este guia responde tudo, com base em fontes oficiais e científicas.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural que consiste no aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, na faixa entre a costa do Peru e o Pacífico oeste, próximo à Austrália. Esse aquecimento altera os padrões normais de temperatura e de chuvas em diversas regiões do planeta.
Ele não age sozinho: o El Niño é a fase quente de um sistema maior chamado ENOS (El Niño–Oscilação Sul) — ou ENSO, na sigla em inglês. O ENOS é uma interação entre o oceano e a atmosfera, associada a mudanças na Temperatura da Superfície do Mar (TSM) e no comportamento dos ventos alísios no Pacífico equatorial. Em outras palavras, o “El Niño” (oceano) e a “Oscilação Sul” (atmosfera) são duas faces do mesmo fenômeno.
O nome tem origem entre pescadores peruanos, que notavam o aquecimento das águas normalmente por volta do Natal — daí “El Niño”, em referência ao Menino Jesus.
Como o El Niño funciona?
Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste sobre o Pacífico equatorial, empurrando a água quente da superfície em direção à Ásia e à Oceania. Isso permite que águas mais frias e profundas subam à superfície na costa da América do Sul (ressurgência).
Durante um El Niño, esses ventos enfraquecem (ou até se invertem). Com isso:
- A água quente se espalha para o leste, em direção à América do Sul;
- A Temperatura da Superfície do Mar no Pacífico central e leste fica acima da média histórica;
- As zonas de formação de nuvens e chuva se deslocam, alterando o clima em escala global.
É esse “efeito dominó” oceano-atmosfera que muda o regime de chuvas e de temperatura em continentes inteiros — inclusive no Brasil.
El Niño, La Niña e fase neutra
O ENOS tem três fases:
- El Niño — fase quente: Pacífico equatorial mais aquecido que a média;
- La Niña — fase fria: Pacífico equatorial mais frio que a média (efeitos, em geral, opostos aos do El Niño);
- Neutralidade — quando nenhum dos dois fenômenos está atuando.
A intensidade do El Niño é classificada conforme a anomalia de temperatura na região de referência do Pacífico (região Niño 3.4), variando de fraco, moderado, forte até muito forte (às vezes chamado de “super El Niño”).
De quanto em quanto tempo ocorre?
O El Niño é periódico e irregular: costuma ocorrer a cada 2 a 7 anos e, em geral, dura de 9 a 12 meses, embora eventos mais longos possam acontecer. As últimas ocorrências de nível médio a forte foram em 2015/2016 e 2023/2024 — e, nas duas, o Brasil enfrentou grandes epidemias de arboviroses, como veremos adiante.
El Niño em 2026–2027: o que dizem os órgãos oficiais
O evento atual é acompanhado de perto por instituições nacionais e internacionais. O consenso, em agosto de 2026, é de um El Niño forte e persistente:
- NOAA/CPC (EUA): as condições de El Niño devem se manter dominantes ao longo do segundo semestre de 2026, com probabilidades próximas ou acima de 90%, persistindo pelo menos até o trimestre dezembro/2026 a fevereiro/2027. O centro chegou a estimar cerca de 63% de chance de um El Niño muito forte para o período novembro–janeiro — o que o colocaria entre os maiores da série histórica iniciada em 1950.
- OMM/WMO: destaca a “forte possibilidade” de evolução para intensidade moderada a forte, o que aumenta o risco de eventos climáticos extremos em várias regiões.
- INMET (Brasil): em atualização de agosto de 2026, apontou 100% de probabilidade de o fenômeno persistir até o início de 2027, com grande chance de intensidade muito forte entre a primavera e o verão.
- INPE, Funceme, Cemaden e CENSIPAM: vêm publicando notas técnicas conjuntas e boletins (como o “Painel El Niño 2026–2027”) com o monitoramento e as orientações de impacto.
A previsão é de que as anomalias de temperatura do oceano atinjam o pico no fim de 2026 ou já em 2027.
Efeitos do El Niño no Brasil
No Brasil, o El Niño provoca efeitos quase opostos entre o Sul e o Norte do país:
- Região Sul: tende a receber mais chuva, sobretudo no outono, inverno e primavera, com maior risco de tempestades, alagamentos e enchentes e excesso de umidade no solo.
- Norte e Nordeste (faixa norte): maior risco de seca e estiagem, com redução das chuvas — o que compromete lavouras e a disponibilidade de água.
- Sudeste e Centro-Oeste: efeitos mais variáveis, com tendência a temperaturas acima da média e irregularidade nas chuvas.
Esses padrões afetam agricultura, geração de energia, abastecimento de água, defesa civil — e, como veremos, também a saúde pública.
El Niño e a dengue: por que existe um alerta?
Em 2026, o Ministério da Saúde publicou a Nota Informativa nº 10/2026 alertando estados e municípios sobre a possibilidade de aumento de casos de arboviroses (dengue, chikungunya e zika) na temporada 2026/2027, em razão do El Niño forte. Não é um cenário hipotético: nas duas últimas ocorrências de El Niño moderado a forte (2015/2016 e 2023/2024), o Brasil viveu grandes epidemias.
O que a ciência mostra sobre essa relação
Pesquisas da Fiocruz e da USP indicam uma relação direta entre fenômenos climáticos como o El Niño e o crescimento dos casos de dengue. Os principais mecanismos são:
- Calor acelera o mosquito. Temperaturas mais altas encurtam o ciclo de vida do Aedes aegypti (do ovo ao mosquito adulto) e fazem o vírus se replicar mais rápido dentro do inseto. Pesquisadores da Fiocruz apontam ainda que o vetor vem se adaptando a temperaturas mais altas, na faixa de 32 a 35 °C.
- Chuva e seca criam criadouros. No El Niño, é comum a alternância de chuvas concentradas seguidas de sol forte, o que favorece o acúmulo de água em pequenos recipientes (pneus, garrafas, vasos, calhas). Já nas regiões de seca, o armazenamento de água para uso essencial também aumenta a oferta de criadouros.
Um ponto importante (e honesto)
O El Niño não causa epidemias sozinho. Como reforçam especialistas (por exemplo, da Unesp), o fenômeno influencia um conjunto de condições que favorecem a transmissão — mas o resultado final depende também da circulação viral, da imunidade da população, da urbanização, do saneamento e, principalmente, das ações de prevenção. Ou seja: o clima aumenta o risco, mas o desfecho ainda está, em boa parte, sob controle da gestão pública.
Os números que embasam o alerta
- Um estudo revisado por pares estimou os casos adicionais de dengue atribuíveis a eventos de El Niño (acima do padrão sazonal): cerca de 4,1 milhões em 2015–16 e 9,6 milhões em 2023–24, em escala global.
- No Brasil, 2015 registrou cerca de 1,69 milhão de casos, e 2023/2024 trouxeram recordes de casos e de óbitos.
- Segundo a modelagem do InfoDengue (Fiocruz), o país pode registrar em torno de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027. Pela Nota do Ministério, sob um El Niño muito forte, estima-se aumento de casos no Sudeste, cerca de +20% no Sul e +10% no Norte, sem efeito agravante previsto para Nordeste e Centro-Oeste.
- Contexto de 2026 (até a semana epidemiológica 24): 392.816 casos prováveis de dengue (queda de 73% ante 2025) e 225 óbitos confirmados — com predomínio do sorotipo DENV2 e expansão do DENV3, que pode encontrar uma população menos imune.
Como se preparar: da informação à ação
O recado do Ministério da Saúde e dos especialistas é claro: o combate às arboviroses não pode se concentrar apenas no verão. O período interepidêmico (o “inverno”) passou a ser a janela mais estratégica para agir. Entre as recomendações da Nota nº 10/2026 estão:
- Intensificar a eliminação de criadouros e as ações de rotina dos Agentes de Combate às Endemias (ACE), com base em estratificação de risco e na positividade de ovitrampas;
- Envolver setores parceiros (educação, meio ambiente, defesa civil, planejamento);
- Reforçar vigilância epidemiológica (notificação oportuna, monitoramento de sorotipos) e a assistência;
- Aplicar tecnologias de controle vetorial e manter estoques de larvicidas/adulticidas.
É nesse ponto que a inteligência territorial faz diferença. Ferramentas como mapeamento aéreo por drones, geoprocessamento e análise de dados ajudam os municípios a identificar possíveis criadouros, entender como o risco se distribui pelo território e direcionar as equipes de campo para as áreas prioritárias — permitindo agir com antecedência, antes que os casos aumentem.
Perguntas frequentes sobre o El Niño
O El Niño é a mesma coisa que aquecimento global?
Não. O El Niño é um fenômeno natural e cíclico de variação da temperatura do Pacífico. O aquecimento global é uma tendência de longo prazo provocada pela ação humana. Os dois, porém, se somam: sobre um planeta já mais quente, um El Niño forte tende a produzir extremos ainda mais intensos.
Quanto tempo dura um El Niño?
Em geral, de 9 a 12 meses, com pico costumando ocorrer entre o fim de um ano e o início do seguinte. O evento de 2026 tem pico previsto para o fim de 2026 ou começo de 2027.
O El Niño causa seca ou chuva no Brasil?
Depende da região. No Sul, tende a provocar mais chuva (e risco de enchentes); no Norte e Nordeste, favorece a seca. Sudeste e Centro-Oeste ficam com efeitos mais variáveis.
Por que o El Niño aumenta o risco de dengue?
Porque o calor acelera o ciclo do mosquito e a replicação do vírus, e a alternância de chuva e sol (ou o armazenamento de água em áreas de seca) multiplica os criadouros do Aedes aegypti. Mesmo assim, o El Niño é apenas um dos fatores — a prevenção continua sendo decisiva.
O que fazer para se proteger?
Eliminar criadouros em casa (água parada), manter o combate ao mosquito o ano todo e, no caso da gestão pública, antecipar as ações com base em dados e monitoramento do território.
Conclusão
O El Niño é o aquecimento periódico do Pacífico equatorial que, ao alterar chuvas e temperaturas pelo mundo, mexe diretamente com o Brasil — do Sul chuvoso ao Norte e Nordeste mais secos. Em 2026/2027, com um evento forte a muito forte confirmado pelos principais órgãos meteorológicos, o alerta vai além do clima: ele reforça a importância do planejamento preventivo contra as arboviroses. A boa notícia é que, embora não possamos controlar o oceano, podemos controlar a resposta — e municípios que se antecipam, com informação e inteligência territorial, saem na frente para proteger a população.
Fontes consultadas e verificadas
- Ministério da Saúde — Nota Informativa nº 10/2026-CGARB/DEDT/SVSA/MS (alerta El Niño e arboviroses 2026/2027).
- CPTEC/INPE — El Niño e La Niña — https://clima.cptec.inpe.br/enos
- INMET — El Niño em 2026 / atualizações de previsão — https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o-em-2026
- INPE/INMET/Funceme/CENSIPAM — Nota Técnica Conjunta El Niño 2026 — https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil
- Cemaden/MCTI — Painel El Niño 2026-2027 — https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/noticias-cemaden
- OMM/WMO — El Niño/La Niña Update — https://wmo.int/resources/publication-series/el-ninola-nina-updates
- Fiocruz / Jornal da USP — clima e dengue — https://jornal.usp.br/radio-usp/fenomenos-climaticos-influenciam-no-crescimento-de-casos-de-dengue/
- Jornal da Unesp — “El Niño, por si só, não promove o aumento dos casos de dengue” — https://jornal.unesp.br/2026/07/02/apesar-das-chuvas-e-do-aumento-da-temperatura-el-nino-por-si-so-nao-promove-o-aumento-dos-casos-de-dengue/
- Estudo revisado por pares — “Rising dengue risk with increasing ENSO amplitude and teleconnections” — https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC12480917/
- InfoDengue (PROCC/Fiocruz e EMap/FGV) — projeções de dengue 2026/2027.


