Como funciona a transmissão pessoa a pessoa da dengue
Diferentemente da transmissão da dengue por mosquitos, a transmissão entre pessoas ocorre quando o vírus presente em fluidos corporais de uma pessoa infectada entra em contato com o sistema circulatório ou mucosas de outra pessoa suscetível. Este tipo de transmissão só é possível durante o período virêmico da doença, que dura aproximadamente de 4 a 12 dias.
Durante este período, o vírus da dengue pode estar presente em diversos fluidos corporais:
- Sangue: com níveis virais podendo atingir 10⁷ cópias/mL
- Leite materno: detectado em 75% das amostras de mães infectadas
- Sêmen: podendo persistir até 37 dias após os sintomas
- Urina: às vezes presente quando já indetectável no sangue
O vírus possui capacidade de atravessar barreiras biológicas importantes, como a barreira placentária durante a gravidez e a barreira hematoencefálica em casos graves, criando múltiplas rotas potenciais de transmissão direta.
Situações específicas de transmissão sem participação do mosquito
Transmissão vertical (mãe para bebê)
A transmissão vertical é uma das formas mais bem documentadas de transmissão pessoa a pessoa da dengue. Ocorre quando o vírus passa da mãe infectada para o bebê durante a gestação (via transplacentária) ou no momento do parto.
Dados científicos importantes sobre transmissão vertical:
- Taxa geral de transmissão vertical: 18,5-22,7% das gestantes infectadas
- Risco no período periparto: até 90% quando a infecção materna ocorre entre 10 dias antes até 10 horas após o parto
- Sintomas no recém-nascido: geralmente aparecem entre 1-13 dias após o nascimento
- Complicações: trombocitopenia severa, hepatomegalia, síndrome hemorrágica e, raramente, encefalite
- Mortalidade neonatal: risco relativo de 6,8 vezes maior comparado a bebês não infectados
Transmissão por transfusão sanguínea
A transmissão por transfusão ocorre quando sangue ou hemoderivados de um doador infectado são transferidos para um receptor suscetível. Todos os componentes sanguíneos podem transmitir o vírus: plasma, hemácias e plaquetas.
Estudos mostram que:
- Prevalência de doadores virêmicos: 0,002% a 1,2% em áreas endêmicas durante surtos
- Taxa de transmissibilidade: 37,5% entre receptores de sangue virêmico
- Período crítico: 1-2 dias antes do aparecimento de sintomas no doador (doadores assintomáticos)
- Risco estimado: 1,625-6 transfusões infectadas por 10.000 procedimentos em regiões de alta transmissão
Transmissão ocupacional em ambiente de saúde
Profissionais de saúde e de laboratório podem se infectar através de acidentes com materiais biológicos contaminados. Casos documentados incluem:
- Acidentes com agulhas contaminadas (período de incubação de 3-7 dias)
- Exposição mucocutânea a sangue infectado durante procedimentos invasivos
- Possível transmissão por aerossol em casos raros
Um estudo relatou 21 profissionais de saúde infectados em um mesmo hospital, destacando o risco ocupacional real.
Transmissão sexual
A transmissão sexual é a via mais controversa e menos estabelecida, mas existem casos documentados:
- Primeiro caso confirmado: Espanha (2020), com transmissão de mulher para homem
- Persistência viral: RNA do vírus detectado no sêmen até 37 dias após resolução dos sintomas
- Evidência de replicação: presença de RNA de fita negativa no trato genital masculino
Apesar destas evidências, a transmissão sexual permanece extremamente rara e de mínima relevância epidemiológica.
Transmissão por transplante de órgãos
Uma via emergente de transmissão ocorre através de transplantes de órgãos:
- O vírus pode persistir em órgãos sólidos mesmo quando indetectável no sangue periférico
- Casos documentados incluem transmissão por transplante renal e hepático
- Maior risco quando há testes inadequados ou emergenciais que não permitem screening completo
Relação com a possibilidade de contrair dengue mais de uma vez
A possibilidade de contrair dengue mais de uma vez está diretamente relacionada à existência de quatro sorotipos diferentes do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). A imunidade após infecção é sorotipo-específica, o que significa que uma pessoa pode ser infectada até quatro vezes ao longo da vida.
Esta característica da dengue tem implicações importantes para a transmissão pessoa a pessoa:
- Reinfecções podem resultar em viremias mais altas e prolongadas devido ao fenômeno de intensificação dependente de anticorpos (ADE)
- Aproximadamente 13,8% dos casos apresentam reinfecção documentada pelo mesmo sorotipo
- Sequências específicas de infecção, como DENV-1 seguido de DENV-2, estão associadas a doença mais grave e potencialmente maior transmissibilidade
- O intervalo entre infecções é crítico: períodos de 6 meses a 3 anos apresentam maior risco de ADE
Pessoas com histórico prévio de dengue que são doadoras de sangue ou gestantes representam um grupo de atenção especial, pois podem apresentar viremias mais intensas durante reinfecções, aumentando o risco de transmissão pessoa a pessoa.
Coinfecção dengue e chikungunya: impactos na transmissão
A coinfecção dengue e chikungunya representa um desafio adicional para a prevenção da transmissão pessoa a pessoa. Ambos os vírus são transmitidos pelo mesmo vetor e podem ser transmitidos simultaneamente por vias não-vetoriais.
Características importantes da coinfecção:
- Prevalência global: 2,5% dos casos de dengue, podendo atingir até 37,4% em algumas regiões
- Interação viral: o vírus chikungunya possui vantagem replicativa sobre o dengue em células hepáticas
- Manifestações clínicas: febre (100% dos casos), artralgia mais intensa (77-82%), trombocitopenia (77%)
- Aumento do risco: infecção prévia por dengue pode intensificar a doença por chikungunya através de ADE cruzada
A coinfecção complica os protocolos de prevenção de transmissão pessoa a pessoa, exigindo:
- Screening duplo em bancos de sangue
- Protocolos obstétricos adaptados para ambos os vírus
- Vigilância laboratorial ampliada
- Precauções redobradas em ambiente hospitalar
Frequência e relevância epidemiológica da transmissão pessoa a pessoa
Em termos epidemiológicos globais, a transmissão pessoa a pessoa representa uma fração mínima do total de casos de dengue:
- Transmissão vetorial: mais de 99,9% dos 390 milhões de infecções anuais estimadas
- Transmissão vertical: <0,1% dos casos globais
- Transmissão transfusional: <0,01% dos casos
- Transmissão ocupacional: <0,001% dos casos
- Outras vias combinadas: <0,001% dos casos
Apesar da baixa prevalência relativa, o impacto em populações específicas é significativo. Em 2024, o Brasil registrou 5.151 casos de dengue em gestantes nas primeiras 6 semanas do ano, um aumento de 345% comparado ao mesmo período de 2023, sugerindo centenas de possíveis casos de transmissão vertical.
Medidas de prevenção específicas para transmissão pessoa a pessoa
Em ambiente hospitalar
- Uso completo de EPIs (máscara, luvas duplas, avental impermeável, proteção ocular)
- Descarte seguro de perfurocortantes em recipientes rígidos
- Desinfecção de superfícies com hipoclorito de sódio 0,5%
- Notificação imediata e monitoramento de 14 dias após acidentes com material biológico
Em bancos de sangue
- Triagem clínica rigorosa de doadores (exclusão com febre nos últimos 14 dias)
- Consideração de teste NAT para DENV durante epidemias
- Técnicas de redução de patógenos, como amotosalen-HCl com luz UVA para plaquetas
- Procedimentos de “lookback” para rastrear receptores quando doadores desenvolvem sintomas pós-doação
Para gestantes em áreas endêmicas
- Proteção intensificada contra picadas de mosquito (repelentes DEET 30% ou icaridina)
- Uso de roupas com mangas longas e telas em residências
- Suspensão de ácido acetilsalicílico durante infecção aguda
- Consideração de adiamento do parto com tocólicos quando clinicamente viável
- Manutenção do aleitamento materno (benefícios superam riscos mínimos)
Contexto atual e perspectivas futuras
A epidemia de dengue de 2023-2024 é a maior já registrada na história. Em 2024, as Américas reportaram mais de 13 milhões de casos – três vezes mais que em 2023. Este aumento dramático amplifica proporcionalmente todos os modos de transmissão pessoa a pessoa, tornando ainda mais importante o conhecimento sobre estas vias alternativas de infecção.
Avanços recentes que podem impactar a prevenção da transmissão pessoa a pessoa incluem:
- Testes NAT multiplex para detecção simultânea de dengue, chikungunya e Zika
- Sistemas de inativação de patógenos com eficácia de 99,9% na redução de carga viral em componentes sanguíneos
- Desenvolvimento de vacinas específicas para gestantes, visando prevenir transmissão vertical
- Melhor compreensão da persistência viral em diferentes tecidos e fluidos corporais
Conclusão
A transmissão pessoa a pessoa da dengue, embora represente uma fração mínima da carga global da doença, possui relevância clínica significativa para populações específicas. As evidências científicas estabelecem inequivocamente a ocorrência de transmissão vertical, transfusional, ocupacional e, mais raramente, sexual.
O manejo adequado exige implementação de medidas preventivas baseadas em evidências, principalmente para grupos de risco como gestantes, receptores de transfusões e profissionais de saúde. Com a expansão global sem precedentes da dengue em anos recentes, torna-se imperativo o reconhecimento e prevenção de todas as vias de transmissão para reduzir a morbidade e mortalidade associadas à doença.
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